Poucas cirurgias carregam tanta mitologia como a cirurgia da coluna. Ao longo de anos de consulta, há um conjunto de receios que se repete quase palavra por palavra — muitos deles baseados numa realidade que já não corresponde à prática atual. Por isso, vale a pena separar aquilo que ainda é verdade daquilo que pertence, sobretudo, ao passado.
“A cirurgia à coluna é demasiado arriscada — posso ficar paralisado”
Mito, com uma nuance importanteÉ provavelmente o receio mais frequente, e merece uma resposta honesta em vez de uma tranquilização fácil.
Nenhuma cirurgia tem risco zero. Nenhuma — nem a da coluna, nem qualquer outra. Fazer essa promessa seria desonesto. O que a prática atual permite dizer é outra coisa: em unidades tecnicamente evoluídas e com equipas experientes, as lesões neurológicas graves são muito raras.
A cirurgia da coluna tornou-se também muito mais precisa. Em determinadas intervenções, a monitorização neurofisiológica permite acompanhar, em tempo real, a função das estruturas nervosas durante a cirurgia. A neuronavegação associada à imagem tridimensional funciona, por sua vez, como um sistema de orientação que ajuda o cirurgião a conhecer com grande precisão a posição dos instrumentos relativamente às estruturas anatómicas e nervosas.
Mas existe uma nuance importante. Nem todas as complicações dependem exclusivamente da execução técnica. Podem ocorrer fenómenos vasculares, neurológicos ou biológicos difíceis de prever e impossíveis de eliminar por completo. Uma cirurgia pode decorrer corretamente do ponto de vista técnico e, ainda assim, surgir uma complicação.
É precisamente por isso que a decisão de operar nunca deve partir da ideia de que “não há risco”. Deve resultar de uma ponderação entre o risco de intervir, o risco de não intervir e o benefício que realisticamente se espera obter. E esses riscos devem ser explicados de forma clara e individualizada antes da cirurgia — nunca depois.
“Todos os cirurgiões da coluna fazem o mesmo”
MitoÉ, provavelmente, a variável que mais pesa no resultado — e uma das que menos pessoas ponderam.
A cirurgia da coluna é uma área altamente diferenciada, em que a experiência da equipa, o volume de casos e a complexidade das situações tratadas estão associados aos resultados. Um cirurgião que realiza apenas algumas cirurgias da coluna por ano não tem, naturalmente, a mesma exposição clínica nem a mesma curva de experiência de quem trabalha diariamente e de forma dedicada nesta área.
E não se trata apenas de talento individual. Conta a repetição, a experiência acumulada, a existência de uma equipa habituada a trabalhar em conjunto, os protocolos definidos, a capacidade de lidar com complicações e o acesso à tecnologia adequada. Quando compara opções, as perguntas úteis são: quantas cirurgias deste tipo faz esta equipa por ano? Que tecnologia usa? Faz cirurgia de revisão, ou seja, está preparada para os casos difíceis?
Na cirurgia da coluna, a diferenciação não se mede apenas pela capacidade de realizar uma operação. Mede-se também pela capacidade de selecionar corretamente os doentes, escolher a técnica adequada e saber como agir quando o caso deixa de ser simples.
“A tecnologia é sobretudo marketing”
MitoNa cirurgia da coluna, há tecnologia cujo benefício é objetivo e mensurável.
Um dos exemplos mais claros é a colocação de implantes, nomeadamente dos parafusos pediculares utilizados em muitas artrodeses. A precisão da sua colocação é fundamental, porque estes implantes são introduzidos em estruturas ósseas muito próximas de nervos, vasos e outras estruturas anatómicas importantes.
A tecnologia permite ao cirurgião saber com maior precisão onde está e para onde está a dirigir cada implante. Numa revisão sistemática, por exemplo, cerca de 80% a 90% dos parafusos colocados por técnica livre ou com fluoroscopia encontravam-se dentro da chamada zona segura, comparativamente com aproximadamente 97% quando utilizada navegação. Estudos e meta-análises posteriores continuam a demonstrar vantagem das técnicas navegadas ou robotizadas em termos de precisão.
Os valores variam com a metodologia de cada estudo. Uma revisão sistemática de 26 estudos prospetivos (6.617 parafusos) reportou 69–94% para técnica livre, 28–85% com fluoroscopia e 89–100% com navegação por TAC: Gelalis ID et al., European Spine Journal, 2012; 21(2):247-255 — PubMed 21901328.
Isto não significa que a tecnologia substitua a experiência do cirurgião — nem que elimine o risco. Significa que acrescenta informação e controlo a um procedimento em que alguns milímetros podem ser relevantes.
E essa é talvez a melhor forma de distinguir tecnologia útil de marketing: não pelo aparato que existe no bloco operatório, mas pela capacidade de tornar determinada etapa da cirurgia mais precisa, previsível e segura.
“Depois de operar a coluna nunca mais posso fazer desporto”
MitoNa grande maioria dos casos, operar a coluna não significa deixar o desporto — significa preparar o regresso em segurança.
É provavelmente o mito mais persistente de todos. A atividade física não só é possível depois de uma cirurgia à coluna, como é parte essencial da recuperação. Temos atletas operados que retomaram a competição, incluindo em modalidades de exigência física elevada e ao mais alto nível.
O que existe é um período de recuperação e progressão, com prazos e etapas definidos caso a caso conforme o procedimento realizado. O regresso ao desporto é planeado, não improvisado — mas é um regresso, não uma despedida. Em muitos casos, a cirurgia é precisamente o que devolve à pessoa a possibilidade de voltar a caminhar, treinar e praticar uma atividade que a dor ou o défice neurológico já não lhe permitiam realizar.
“Vou ficar semanas sem andar”
MitoNa maioria das cirurgias da coluna, o objetivo é levantar e começar a andar o mais precocemente possível — e o levante acontece, muitas vezes, no próprio dia.
É das perguntas que mais surge em consulta — “quantos dias vou ficar sem andar?” — e a resposta costuma surpreender. Nas cirurgias minimamente invasivas, os utentes levantam-se no próprio dia, andam e sobem escadas. Não é apenas permitido: é recomendado, porque a mobilização precoce reduz o risco de complicações associadas ao acamamento e favorece uma recuperação funcional mais rápida.
O que mudou
A imagem do doente que permanece semanas numa cama depois de uma cirurgia à coluna pertence, na grande maioria dos casos, ao passado. A evolução das técnicas cirúrgicas, da anestesia, do controlo da dor e dos protocolos de recuperação permitiu reduzir significativamente a agressão dos tecidos e acelerar a mobilização. Nas técnicas minimamente invasivas, incisões menores e menor agressão muscular podem facilitar ainda mais esta recuperação.
Muitas das ideias que as pessoas ainda trazem para a consulta não foram inventadas. Descrevem uma cirurgia da coluna que existiu — mas que, em muitos casos, já não é a cirurgia que fazemos hoje.
“Vou ter de dormir numa posição especial para o resto da vida”
MitoA cirurgia não condiciona, normalmente, a forma como dorme.
Não há uma posição obrigatória depois de uma cirurgia à coluna. A única recomendação que se mantém — e que vale para toda a gente, operada ou não — é evitar dormir de barriga para baixo, porque obriga à rotação prolongada do pescoço e pode aumentar a extensão da região lombar.
Fora disso, dormir de costas ou de lado é uma questão de conforto. Se tiver indicações específicas relacionadas com o seu procedimento, a equipa transmite-as no pós-operatório.
A conclusão que interessa
A maioria destes mitos tem uma raiz comum: descrevem a cirurgia da coluna como ela era, e não como é. Isto não significa que a cirurgia seja sempre a resposta certa — na verdade, a maioria das dores da coluna não precisa de cirurgia, e há um conjunto alargado de tratamentos não cirúrgicos a explorar primeiro.
Significa apenas que a decisão deve ser tomada com informação atual, e não com receios herdados. Se está a adiar uma avaliação por causa de algum destes mitos, vale a pena esclarecer as suas dúvidas com quem opera todos os dias.
Porque a melhor decisão não é operar nem deixar de operar. É perceber, com informação atual e adequada ao seu caso, qual é realmente a melhor opção.
Este artigo tem finalidade informativa e não substitui uma consulta médica. Os riscos, benefícios e prazos de recuperação variam com o procedimento e com as características de cada utente, e só podem ser estabelecidos após avaliação individual.

